Trapaça, o novo livro de Marcelo Labes

O poema é a trapaça da língua. A poesia, trapaça nas trapaças da vida.

Trapaça. Por quê?

Porque somente trapaceando é que a poesia existe e pode percorrer esse caminho entre o autor e seu leitor. Não há saída: ou o sujeito trapaceia na hora do trabalho (como na hora da aula, na hora de ir pra casa [os ônibus lotados], na hora do domingo em família, na hora do amor), ou o poema não se deixa ser escrito: vai embora sem deixar recado. Vai embora sem deixar endereço onde encontrá-lo.

Trapaça se pretende uma coleção de poemas pensados por bastante tempo, mas escritos às pressas. Já que ainda não nos proíbem pensar, pode-se fazer isso largamente e sem vergonha. Quanto a escrever poesia… para escrever poesia é preciso se trancar no quarto, no banheiro, na sala suja debaixo da escada antes que se descubra o que está sendo feito e venha uma censura, uma correção fora de hora, um contra-incentivo público ou privado.

O financiamento coletivo de Trapaça tem a ver com isso, com proximidade. Porque esta forma de publicar um livro ultrapassa as barreiras da política tradicional. Não se trata de agradar a um comitê de um fundo público para lançamento de livros, tampouco de escalar amizades para chegar ao conselho editorial de uma editora superbacana.

Trapaça tem a ver comigo e contigo. Estão nele poemas que queria ver publicados, que já foram bem lidos e que são inéditos neste formato. Estes poemas foram escritos baseados na proximidade autor-leitor desde que existe a página onde foram publicados, curtidos e compartilhados – até o momento de seu esquecimento. Porque a internet faz isso. A gente faz isso. Os poemas, se não estão ali na nossa frente, a gente deixa para trás.

Se existe uma razão para a publicação de Trapaça, aqui está: estes poemas não podem se perder, não devem se perder, e colocá-los nesta edição, pensada com tanto carinho, é optar por sua permanência.

Mais uma pedra no caminho.

Meu primeiro livro de poemas, o Falações, foi uma baita experiência enquanto escritor. 1216146789_capa_photoshopEle não estava pronto para ser publicado e eu não estava pronto para receber esse título.

Não sabia ainda muito bem do que se tratava ser escritor, poeta etc. Achava que tínhamos jeito, minha poesia e eu. E como não assumisse que se tratava de algo incurável, o livro saiu depressa demais, ansioso demais. E confuso. Há nele várias linguagens de vários momentos que antecederam sua publicação, em 2008.

Mesmo tendo sido feito às pressas, foi um livro muito importante pelo fato de me permitir praticar a voz poética com liberdade. Já que o estrago havia sido feito, o melhor a fazer era melhorar aquela voz, deixar que ela falasse mais alto e mais claro.

Depois do silêncio, as dúvidas.

Foram anos e anos publicando poemas na Internet. Em blogs, nas redes sociais… Até que em 2014 foi escrito o Porque sim não é resposta. Escrito em tempo real, neste blog. Não sabia como nomeá-lo naquele momento (acho que até hoje não sei em que gênero literário Marcelo Labes - pq sim 2ª edição2situá-lo). Chamei-o “livro de um poema só”. Porque se trata de um poema [aqui dentro da minha cabeça], mas não se utiliza de versos, senão de parágrafos. E cada parágrafo desses é uma resposta a uma pergunta que não lembro qual é, ou lembro e deixo estar. É um poema sobre respostas que procuram por suas perguntas.

Sua publicação foi uma surpresa. Um ano depois de pronto, o Porque sim… ainda não sabia que poderia ser publicado. Eis que conheci o pessoal do Coletivo Antítese, que produz zines de baixo custo. Após ser lido, veio a proposta: e se o poema-só ganhasse uma versão impressa? Claro que sim! A arte de capa, de Lucian Januário, fez do meu poema um livro. Mas um livro barato de ser feito e vendido. Seu tamanho pouco e a delicadeza que tem que se ter com uma publicação assim, fizeram dele um amigo querido.

Esse ano, 2016, o Porque sim… foi reeditado. É sua segunda edição, agora uma parceira do Coletivo Antítese e da Editora Hemisfério Sul. E segue sendo procurado, lido e compartilhado. As respostas, enfim, parecem encontrar suas perguntas.

Escrever para seguir adiante.

A publicação do Porque sim… deu liberdade de pensar em escrever algo sobre o que mantive silêncio por muito tempo. Pensava, naquele momento, que a literatura podia fazer mais sentido se eu direcionasse as dúvidas expostas no Porque sim…  para dentro de mim 11999977_1233506256676208_1470466676_nmesmo. Então surgiu O Filho da empregada. Seu formato em prosa lírica não deixa de lado a poesia – acho mesmo que se aproxima mais da poesia do que da prosa.

Aqui, o que está em jogo é a memória. A lembrança de uns anos difíceis, quando minha mãe se tornou mãe e pai e a vida ficou seca de repente, enquanto nos inundávamos na umidade do cotidiano. Se o poema, sozinho, consegue espantar fantasmas, tomei a liberdade de escrever este texto para me resolver com o passado, com o passado de minha mãe, e me resolver com a nossa condição de filhos de empregadas que optamos por resistir ao apequenamento a que, supúnhamos, estávamos condenados.

O Filho da Empregada foi publicado, em primeira edição, nos moldes do Porque sim… no ano anterior: uma edição barata, de fácil acesso ao leitor. Mas agora com ISBN e Ficha Catalográfica. Quanto aos fantasmas daqueles tempos, por incrível que pareça, eles se calaram quase todos.

Um novo livro de poemas

O formato econômico do Porque sim… e dO Filho da Empregada fez sentido por bastante tempo, mas o formato em si oferece suas limitações. A ideia inicial era terminar de escrever Ratoeira, outro poema longo, e lançar então os três (o Porque sim…, o Filho da Empregada e Ratoeira) numa edição de gráfica, com um bom papel, uma boa capa, brochura etc., como costumam ser os livros.

Mas Ratoeira não pode ser escrito agora. Em vez disso, antes que fosse visto como alguém capa 2que não entende de prosa e por isso faz poesia, resolvi reassumir a voz de poeta, com meus poemas curtos, corriqueiros, escritos às pressas, que é a voz com a qual mais me identifico e que, de certa forma, me identifica.

Lá se vão oito anos desde a publicação de Falações. Lá se vão 8 anos em que aqueles poemas vão perdendo contexto e o livro vai indo adiante. Chega a hora de publicar Trapaça, este livro de poemas inéditos para a maioria dos leitores, publicados previamente na minha página do Facebook.

A poesia é urgente, como costuma dizer meu amigo Edu Barreto. E eu acredito que sim. Diante destes dias, diante destes momentos que vivemos em incertezas, poesia. Para fugir do cotidiano e dos academicismos mordazes, poesia.

Trapaça é um livro de poemas que precisam ser lidos e que somente por isso foram escritos. Agora chega o momento de sua publicação.

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