Andréia Peres entrevista Marcelo Labes

Andréia Peres é amiga e provocadora. Não sei se até hoje tínhamos conversado tanto sobre literatura (“conversado” porque é exatamente assim que convivemos, eletronicamente). Então ela me fez umas perguntas cabeludas, que me dispus a responder e o resultado segue aqui embaixo.

Andréia Peres: Você sente uma certa culpa artística quando o artista não está caminhando nessa vertente de manifestações políticas e feministas (de gênero)? Acredita que a obra tenha de ser direcionada socialmente?

 Marcelo Labes: Não há culpa. Tenho admiração por quem trata de temas tão importantes como a LGBTfobia na sua literatura – quando faz isso bem, por exemplo. É preciso saber a distância que há entre um panfleto e um poema. O panfleto informa, chama atenção pra temas importantes. O poema habita outro mundo, tem outra importância. A poesia engajada às vezes incomoda mais que ajuda, de fato, a luta em função da qual é escrita. Porque a linguagem literária confunde a língua (ou deveria confundi-la). Gosto da definição de Roman Jakobson, quando diz que a literatura é uma violência organizada contra a fala comum. Acredito nisso, procuro escrever assim meus poemas.

Às vezes parece que se a poesia não é engajada, seu autor não é engajado. Mas a poesia, em si, não acaba com o capitalismo, tampouco evita que homossexuais sejam brutalmente assassinados. O que quero dizer é: a poesia, só, não muda muita coisa, mesmo que as palavras escritas sejam brutalmente revolucionárias. O autor pode ser engajado e não conseguir comunicar poeticamente com suas palavras, como pode não ser engajado em qualquer movimento social e colaborar com suas palavras para a reflexão de um determinado movimento.

Tenho poemas assim. O Cheiro de Povo, por exemplo, é uma resposta ao General Figueiredo e àquela frase em que ele diz preferir cheiro de cavalo a cheiro de povo. É um poema para ser declamado na praça, foi escrito para isso. Mas não é minha maior preocupação quando sento para escrever um poema. Se o autor vive sua realidade (a nossa dura realidade), sua poesia dialogará com o real. Mas se insistir em falar de racismo, machismo, homofobia sem dialogar com o poético, então escreverá panfletos, não poemas. Gosto de acreditar no que diz Edu Barreto, poeta paraguaio que declama nas praças de Asunción, que a poesia nos salvará da realidade. Mas não somente ela. Se não fizermos nossa parte, nem a poesia dará conta desse poço sem fundo em que viemos nos afogando.

 

AP: O que te define e o que você deseja ser como um artista literário?

ML: Não sei o que me define. Penso pouco nisso. Acho que o eu-poeta acontece em diversos planos de uma mesma realidade. Tanto é assim que Trapaça tem quatro partes, como Falações também tem. No fundo, não passo de mais um trabalhador-estudante-rapaz-latino-americano-sem-dinheiro-no-banco etc. e tal. E nessa correria de nunca ter tido tranqüilidade com a realidade do mundo e com a minha própria, me acostumei a escrever. Meus poemas não são curtos porque soam esteticamente melhor assim. Eles são curtos porque são escritos na correria, no meio do trabalho, no meio da aula, no trajeto de ônibus de casa para o trabalho, na volta para casa, depois de passar no mercado ou comprar cigarros. E isso de definir é esquisito, porque eu mesmo já encrenquei com isso quando realizamos o Processo de Despedida. Aquela era uma mostra fotográfica, mas eu não via fotos ali, via poemas. Se eu faço uma canção, não vejo a canção como um músico, um compositor; vejo como poeta. Então se é pra definir, diria que sou poeta que procuro por linguagens porque tenho necessidade de falar, de expor, de provocar. Botar pra fora mesmo, seja da maneira que for.

 

Como todo mundo que escreve, desejo ser lido – mas isso já vem acontecendo. Então, claro, quero ser mais lido. Quando se tem um livro pronto e parece que fechou um círculo, na verdade o círculo está é se abrindo. Porque é a partir da publicação do livro que começam os encontros, os desencontros, as críticas, as conversas. E quando alguém te interpela falando de algo que tu escreveste, é como se tudo fizesse sentido, ali naquele momento. Uma conversa com um leitor atento valerá sempre muito mais do que uma resenha acadêmica ou do que uma menção numa mesa-redonda sobre literatura produzida sei lá onde, sei lá por quê. No fim, meu desejo é comunicar e me livrar de tanta angústia, disso tudo que absorvo, que trago comigo e que preciso fazer sair por essa válvula de escape que é o poema, que é a poesia.

 

AP: Existe amor em Paraty?

ML: Quase não. Ou muito. Depende de onde se anda. Da Flip já tinha ouvido falar muito mal, fosse pelo Marcelo Mirisola, que denuncia essa politicagem literária do mainstream, fosse pelos blogs que denunciam que a festa literária serve mesmo é pra se ganhar dinheiro. Estar lá foi isso, perceber isso. Mas nem tudo são carros caros e senhoras caquéticas que perdem a elegância. Tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, onde a luz da Flip não bate diretamente. O pouco que vivi por lá foi para aprender isso.

 

Primeiro que a Flip nunca contemplou os autores locais. É dessa invisibilidade imposta que surge a Off-Flip. E é na Off-Flip que acontece o que realmente importa. Não são divagações acadêmicas ou a Heloísa Buarque de Hollanda explicando que marginal, nos anos 1970, era o autor à margem das grandes editoras, diferente de hoje, quando marginal significa marginal mesmo (?). Não. Ali tem muita gente foda, gente que está produzindo seus próprios livros, arrumando maneiras de publicar com baixo custo. Tem o pessoal dos slams de São Paulo e do Rio de Janeiro. Um sem-fim de gente que produz e publica com muito esforço, que se reúne para fazer a poesia sobreviver e ir adiante. E isso não acontece sob os holofotes da Flip. Acontece exatamente onde a luz não bate direito. Ali sim. Ali pode se dizer que existe amor.

 

 

AP: Se fosse nomear um livro para ler e admirar e depois olhar pra trás e ver que era razoável e não a razão de ser poeta, qual seria?

ML: Meu primeiro livro de poemas foi Espumas Flutuantes, de Castro Alves. Romântico abolicionista, aquilo fazia doer, e eu ainda era criança. O baiano colaborou com o trágico que me habita, principalmente. E com o tom de denúncia, de preocupação com o que acontece à volta. E por muito tempo, adolescente ainda, quis escrever como ele, com a perfeição da métrica, o ritmo, as rimas perfeitas. Quando finalmente desbaratinei dessa onda romântica, foi pelo contato com Manuel Bandeira, numa antologia de 1968, roubada de uma biblioteca por um amigo meu. Bandeira me proporcionou liberdade na escrita: percebi que podia escrever sobre o que quisesse, que ainda assim seria poesia. Isso naquele momento. Fui entender como o cotidiano se torna poético com Mário Quintana e seu Caderno H. E depois vieram vários outros autores, vivos e mortos, de perto e de longe. Mas o responsável pelo interesse por poesia foi Castro Alves, lá na metade dos anos 1990. Continua sendo uma grande obra, mesmo que se distancie de tudo quanto escrevo ultimamente.

AP: Nesse sentido, que referências acabam sendo involuntárias ou propositais? Há livro pra ser lido e livro pra ser apenas referência?

 

ML: Poeta deveria gostar de ler poesia. Voltei a ler poesia faz pouco tempo, com um livro de Rubens da Cunha, o Curral. Então passei um tempo sem ler novamente e comprei uma coleção de livros de poesia por um preço bem barato. Dos doze livros que chegaram, li seis. Dos seis, três foram especiais. Autoplágio, de Wilson Caritta; Livre-me, de Caio Carmacho e Domingo no Matadouro, de Marcelo Pierotti. Havia algo que me distanciava de ler poesia, como se isso fosse atrapalhar minha escrita. Descobri que não. Ler estes autores me fez escrever mais. A admiração, em literatura, deve sempre se tornar escrita nova. Acho que já estou um pouco além da imitação, do plágio autoral de quando se começa a escrever. Marcelo Mirisola diz que há autores que são como encostos, e quando a gente senta pra escrever, eles estão ali com a gente. Com ele, teria sido assim com Henri Miller. Quanto a mim, carrego um monte de fantasmas comigo, mas nunca sei direito quem são. Não reconheço seus rostos.

 

As referências para escrever poesia não precisam, necessariamente, vir de dentro da produção poética. Digo: li muito mais romances do que livros de poesia. Posso discorrer algumas horas sobre Saramago, Sartre, Camus, Nizan, García Márquez, Kafka e Miller. Sou admirador da obra de Cony, acho que Mirisola é o que temos de melhor na prosa e me encanto com Godofredo de Oliveira Neto. Flerto com Bolaño, embora só tenha conseguido terminar de ler os Detetives Selvagens. Ou seja: conheço pouco de poesia que possa usar de referência, de bandeira, como quem diz: “Venham por aqui!”. Reli por muito tempo os mesmos livros, em geral de autores que viveram aqui em Blumenau e que são quase desconhecidos. Para além de Lindolf Bell, que a maioria das pessoas conhece só de nome, tivemos uma produção nas décadas de 1980 e 1990 de autores ilustres, importantíssimos, como o Mauro Galvão, o Endoença Martins, Douglas Zunino, Dennis Radünz, Marcelo Steil. E essa produção segue sendo ignorada. Relê-los é uma forma de insistir que permaneçam, que a obra permaneça e que sejam finalmente reconhecidos.

 

E quanto às referências, bom, tudo é referência. Tudo. Este ano me formo em ciências sociais. O que isso tem a ver com literatura? A resposta é simples: nada! Mas é referência. Meu pai está com câncer, descoberto já avançado, e agora passa por aqueles tratamentos tradicionalmente cruéis. O que isso tem a ver com poesia? É combustível. Das bulas de remédio aos livros de teoria política, dos seriados estadunidenses aos filmes arrastados de Tarkovsky, o poeta precisa estar atento. Porque o poema habita onde a gente nem espera. As palavras estão soltas por aí e é preciso algum cuidado para juntá-las num verso, numa estrofe.

 

Então se fosse dizer que livros devem ser lidos, eu diria que os livros que já estão sendo lidos. Cânones servem pra alimentar o olhar cult-chic de gente que leu uma lista pronta de livros muito importantes, mas pergunto: importantes pra quem? E nessas listas de livros-que-devem-ser-lidos, a importância de uns aumenta enquanto a de outros diminui, dependendo do que se discute no momento e qual a lista de filmes indicados para receber o Oscar naquele ano. De repente, as pessoas se lembram da geração beat, porque se filmou algo de Kerouak ou de Ginsberg, e naquele ano quem não tem um On the road embaixo do braço não pode participar da roda de conversa.

 

Livro importante é aquele que nos arrebata, que nos fode a vida, que nos faz pensar e repensar a importância da literatura. Nesse sentido, e finalmente respondendo à pergunta: sim, tem muito livro que se lê por obrigação, quase que para se ter assunto na fila de entrada da Flip, por exemplo, sob o sol quente de Paraty.

 

AP: Há uma grande necessidade de se inserir conteúdo cultural nos projetos artísticos. Ainda há pouco reconhecimento da diferença entre Arte e Cultura. Quais outros meios em que o artista pode difundir sua cultura sem ser através de sua obra (seja literária, plástica ou fotográfica)?,

ML: Em Paraty, participamos, Luiza e eu, de uma feira de editoras independentes. Achei o máximo a idéia. Então levamos livros meus, da Urda Alice Klueger, da Cláudia Iara Vetter, do Luís Ramil e do Gregory Haertel. Quem vive aqui, sabe o peso desses nomes. Pensei: vou poder entregar esta segunda edição de Aguardo, do Gregory, nas mãos de pessoas que encontrarão ali tudo aquilo que encontrei enquanto lia. Besteira. Era uma feira de design gráfico, onde participavam editoras e ilustradores. Não havia ali espaço para livros, de nenhuma forma.

 

Quem chamou atenção para isso foi Luiza, quando disse que nossos livros ali expostos não piscavam nem explodiam ou faziam cambalhotas. Acredito que o design gráfico vem com uma linguagem forte em aparência – e até mesmo em significado, por que não? – e que dá a entender que o livro, por si só, com as palavras umas depois das outras, perdeu seu significado. Acredito que se trate de um fenômeno em que a linguagem de fanzine, as colagens, as palavras soltas, entraram numa onda de superespecialização e industrialização. A arte gráfica engole a literatura.

 

Mas eu queria dizer outra coisa, pra responder à pergunta: o artista precisa fazer arte. Sua arte. Se ele é culto ou inculto, onde está o interesse? Se os poemas que um ex-presidiário (palavras dele) vende na frente do supermercado me são mais importantes do que as palavras de Pessoa, vão me perguntar quem é mais culto? E se eu dissesse que Pessoa era culto da cultura dele, e que o cara ali é culto de uma cultura que Pessoa nunca poderia ter experimentado? Eu sou muito chato com poesia. Ou gosto ou não gosto. E não tem isso de “talvez daqui a um tempo”. Tem muita poesia ruim sendo escrita, publicada, compartilhada em redes sociais. Palavras soltas e sem significado que ganham a alcunha de poesia por serem escritas em versos. Mas tem muita poesia – e muito boa, com muito conteúdo etc. – que é simplesmente ignorada, porque o cara não é um Manoel de Barros ou [agora que a ressuscitaram] a Ana C.

 

E não tenho idéia de onde vem isso, mas suponho que da academia. Porque podemos dizer “ah, a academia tem seus valores, suas virtudes”. Não nego que tenha. Mas a academia tem seus vícios e, se analisarmos isso via Bourdieu, veremos que é um campo em conflito, eternamente em conflito. Então que se sou poeta e não tenho amigos para me garantir valor simbólico dentro da academia, estarei condenado a vagar com meus poemas à margem dela, o que é lindo! Há quem não suporte estar à margem da academia e das revistas “especializadas”, então vem com isso de cultura. Textão de Facebook falando de cultura. Não é necessário. O artista precisa garantir sua arte. Sobre o quanto é culto, isso não deveria nos interessar, a menos que precisássemos votar no sujeito para presidente de clube de masturbação teórica. Mas daí, já não interessaria o que ele escreve, se escreve, mas quantos livros canônicos conseguiu engolir sem mastigar.

 

AP: Há o estudo e análise morfológica e semântica e outras interpretações dos poemas, que atravessa uma geração de grades curriculares, que competem aos professores de ensino médio e faculdade de Letras fazerem seus alunos estudarem. Me dê sua visão.

ML: Há análise de tudo, menos análise subjetiva e pessoal do poema. Há encaixotamento acadêmico, engavetamento teórico – mas as pessoas não dizem com o que se identificam, a parte do poema que mais dói ou faz sorrir. Quero dizer: a literatura ensinada nas escolas serve pra quê mesmo? A escola é exclusiva, primeiramente. Parece querer incluir, mas é um mecanismo de exclusão. Se não, por que, por exemplo, nas escolas de Blumenau, ao se falar de poesia, se fala de Camões, de Drummond, de sei-lá-quem-que-já-morreu, mas pouco se chama o Douglas Zunino, por exemplo, que está vivo, é um poeta vivo e vive aqui em Blumenau?

 

É mais ou menos assim: repete-se o cânone até que ele petrifique. Daí em diante, até que surja outro “grande poeta”, a gente vai ruminar os mesmos poemas à exaustão. Então que o professor fica diante da sala de aula tentando explicar como é importante a pedra no meio do caminho, mas ignora que existam ali mesmo, diante dele, estudantes ouvintes e compositores de rap, que escutam e fazem muita boa, e que tem de parar seu raciocínio poético para pensar na pedra de Drummond. Telúrico só faz sentido depois que a gente procura no dicionário. De qualquer forma, só li essa palavra em Drummond.

 

Eu tenho é o saco cheio da maioria desse estudos de literatura. Primeiro porque falta a compreensão de que gramática, sintaxe e morfologia interessam a muito pouca gente. Depois que se esconde a exclusão das notas, por professores e métodos de ensino, sob o manto de um interesse na literatura que não interessa, muitas vezes, nem mesmo quem ensina. Quando cursava letras, numa cadeira de literatura portuguesa (a segunda cadeira de literatura portuguesa), o ano estava acabando e ainda não havíamos falado de Saramago e Lobo Antunes. Passamos por tudo, das cantigas de amor e de amigo ao sarcasmo de Bocage, mas nada de literatura portuguesa contemporânea. Quando questionei a respeito, a resposta foi que o pouco tempo não nos permitiria falar desses autores. Mas se não íamos falar deles, especificamente deles, por que então haver uma cadeira de literatura portuguesa? Pra de novo lermos aquelas cantigas de amigo, em galego-português, que todo mundo faz que sim, mas entende coisa nenhuma?

 

Sim, há que se estudar a língua portuguesa. Mas pode-se fazer isso de maneiras menos doloridas. Ou a gente ainda vai insistir em falar da importância de Camões pra quem tem internet no celular e não sabe como se virar nesta vida, neste mundo, neste caos em que a gente vive? Pode-se falar de literatura e poesia, mas não precisamos retomar sempre e de novo os clássicos, como se disso dependesse a compreensão da literatura produzida hoje. Quem lê os clássicos, que vive repetindo a importância da alta literatura, nunca vai entender a poesia de rua, do rap, da gurizada que está compondo e cantando a partir de sua realidade. Pode-se buscar um diálogo entre o novo e o antigo, mas é um erro partir sempre da premissa de que é importante saber de onde viemos para entender para onde vamos. Em se tratando de literatura, esta busca de origem afasta mais do que aproxima a juventude da literatura que se produz hoje em dia.

 

 

 

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