Vento Sul

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Falações, meu primeiro livro, foi dividido em quatro partes que não pude nunca chamar capítulos, posto que é um livro de poemas. Trapaça, por costume ou birra, tem a mesma estrutura. Mas um detalhe mais vincula as duas publicações: o poema de abertura. No Falações, o poema que abre a obra chama-se 27 de Agosto e se pretendeu, quando escrito, um manifesto a que nunca alguém deu a devida atenção (eu mesmo, inclusive). Já o poema-de-abertura de Trapaça chama-se Vento Sul e diz assim:

de qualquer forma
sul

como promessa
de desengano

melancolia grave
de quando faz frio

trópico de capricórnio
redesenhado na garganta.

 

Tem muita coisa aqui, e já me disseram para nunca falar da Estética do Frio, de Vitor Ramil, muito rapidamente, sob o risco de se taxado de separatista étnico, como são os adeptos do movimento O sul é meu país, por exemplo. Mas não se trata de separatismo, de menosprezo a um Brasil explorado às toneladas, às milhões de vítimas dessa exploração. Só pra deixar claro.

Viver aqui tem outra coisa, que Ramil definiu como estética do frio. Um sentimento que nos separa do Brasil tropical e que não reside somente na temperatura temperada. Acaso não se sabe do frio que faz em Minas Gerais e em regiões de São Paulo e Rio de Janeiro? Temos ainda um frio mais profundo e intenso, ancestral, que se pretende derreter de todas formas, mas que se leva bem dentro: é o frio da alma, talvez imigrante, talvez tropeiro, indígena perseguido ou escravo apagado da memória coletiva. Porque se em Blumenau chegamos a zero grau no inverno, suportamos também os 42 graus no verão. E suportamos a umidade que nos entra até os ossos. Então o frio que dói não é o do termômetro. O que nos iguala, enquanto habitantes dessa região embranquecida sob valores do darwinismo social do século XIX, é essa sensação de pertencimento a um outro-espaço: um Brasil que tem samba e milonga, fronteiras nunca estabelecidas entre este e outros três países, idiomas que se confundem e se fundem, misturando Europas diversas, Brasis diversos.

É este sul, enquanto promessa de desengano, que vem aqui dentro. Como uma marca. Penso que não poderia nunca ter nascido em outro lugar e trazer comigo outra história. Não posso ou quero, mas essa distinção, esse ser outro tipo de brasileiro que não o moreno, negro, indígena, nordestino e metropolitano de uma cidade com centenas de anos, chega a ser prisão (nunca glória, como disso fazem alguns) quando perguntam de que país venho, porque essa cara de gringo, e penso comigo que temos a língua em comum, sim, mas é outra a língua, são outras as vegetações e é outra a maneira de ser, complexamente, brasileiro. Seja como for, habite onde habite, a memória mais forte não será a do ouro mineiro, da madeira do nordeste, da escravidão, das revoltas heróicas, isso tudo que o Brasil carrega, com seus múltiplos sentidos, como motivo de orgulho. Estamos presos aqui. O desengano deve ser isso. Por mais que fujamos, por mais que fujamos disso, estaremos presos a essa memória comum, imigrante e melancólica, além de fria.

O frio emudece as pessoas de dentro para fora. Já sabiam disso os proto-jês — e depois deles os guaranis e os kaingang —, habitantes ancestrais dessas terras, cujas moradas circulares permitiam o acolhimento em torno do fogo. Não sei de onde veio o chimarrão, mas a acolhida circular permanece: a roda, o círculo, o entorno aquecido pelo calor do mate, pelo calor do outro, o fogo aceso. Mas eu dizia que o frio vem de dentro para fora, e uma clara demonstração disso, para além dos separatistas, são as opiniões comuns de habitantes desse Brasil sulista que ignoram a história do país e a de seus ancestrais imigrantes, que supõem heróicos, nunca coitados, nunca fugidos da fome européia para viver a fome da mata, o calor e os incômodos da mata, e esse frio interior que não descongela nunca.

O frio emudece as pessoas de dentro para fora, então não estranha que nos encontremos mais no cinema europeu, nos conflitos psicológicos, do que em muito do cinema brasileiro e seus arquétipos: a felicidade aqui, soa diferente. Assim como os sorrisos. É um quase não-ser que se esforça a todo custo para ser, e nem sempre consegue.

Moacyr Scliar tem um livro importantíssimo para a compreensão disso, chamado Saturno nos Trópicos – a melancolia européia chega ao Brasil. Nele são expostas a tristeza do escravo, a tristeza do índio e a melancolia do europeu. Porque os sentimentos são palavras, e a história européia há muito vinha nominando tristezas, classificando-as, estudando melancolicamente a melancolia, de que viramos herdeiros.

Vento Sul talvez seja um pedido de desculpas e uma advertência: desculpas pessoais que me devo sempre, por sempre querer ser outro. Advertência para que não se procure em Trapaça calor que não seja de cobertores, luz que não seja amarela, sorrisos que não sejam tímidos, palavras que não soem dúbias.

Há condições inegociáveis nisso de se viver. E pensar sobre isso, no meu caso, termina num poema.

 

Os poemas de Trapaça

Já falei sobre isso, mas pensei em insistir: Trapaça não é um livro de poemas inéditos. Pelo contrário: alguns deles fizeram algum “sucesso” no Facebook, quando compartilhados na página onde posto meus poemas. No entanto, não se volta a eles. Eu mesmo tenho dificuldade de relê-los. E como o autor escreve para ser lido, pensei que em vez de repetir compartilhamentos para ganhar curtidas nessa bolha algorítmica que é a tal rede social, melhor seria selecioná-los e fazer deles livro à moda antiga, livro à moda atual, livro-livro.

Um dia, fazia muito frio, os poemas já estavam impressos e era preciso dar jeito neles, selecioná-los, de maneira que o leitor, ao ler Trapaça, conseguisse transitar por entre as letras sem maiores incômodos ou distrações. Fazia frio, e lá fomos nós, Luiza e eu, atrás dum gramado onde houvesse um raiozinho de sol que nos esquentasse e iluminasse todos aqueles papéis que trazíamos. O sol já havia ido, o frio já nos congelava, mas a seleção foi feita.

Trapaça acontece em quatro momentos.

Na primeira parte do livro, o que há são os metapoemas, poemas que falam de poemas, reclames de poeta que se descobre (indefeso) diante da Poesia. São poemas-neurose de quando se busca saída e o que se encontra é inevitavelmente o poema.

A segunda parte é leve e livre. São poemas de amor, de sol amarelo em outono, escritos à luz da presença de Luiza em minha vida. São poemas sutis, encantados, que reclamam companhia para esquentar os pés gelados no inverno e sonham um sonho de várias estações.

Para a terceira parte, separei poemas que tem como ligação entre si o tema da memória. Estão a família, aqueles anos esquisitos e de gosto ruim, que foram os 1990. A poemas dedicados a personagens da infância, como alfaiate (ou Alfaiate, nome próprio), o sujeito que vivia num quartinho-ateliê perto de casa e que foi, talvez, meu primeiro amigo. Há poemas para quem não está mais aqui e para quem continua aqui, mas se vai. São poemas doloridos, talvez. Antigos, talvez. São poemas de reencontro e de abandono: relembrar para reesquecer.

A quarta parte é despedida, desmoronamento, engavetamento de automóveis na auto-estrada. Contam-se os mortos, nós mesmos mortos. São poemas escritos diante da realidade do mundo, dessa realidade, disso que por mais que ignoremos, nos acontece e nos destrata.

Esta reunião de poemas se pretende uma seleção do que de melhor foi escrito lá na fanpage. Alguns, com muitos leitores. Alguns deles, com muitos comentários. E alguns que passaram sem que fossem percebidos no meio do bombardeio de informação das redes sociais – e que mesmo assim são considerados bons textos.

Trapaça será publicado em novembro. Logo mais, em agosto, será lançada a campanha de financiamento coletivo para a publicação do livro.

Para que ele seja publicado, para que esses poemas existam-de-fato num exemplar, conto contigo!

 

 

O design de capa de Trapaça

Fabi Cenci foi convidada por Andréia Peres para realizar o design de Trapaça. A seguir, a apresentação da designer que tomou Trapaça como projeto e fez esse belíssimo trabalho com a capa do livro.

Fabíula Cenci nasceu em Joinville em 1987. Já na infância, começou a despertar interesse pelo lado artístico da vida e das coisas. Sempre desenhando tudo e criando seus personagens, não foi difícil, na adolescência escolher a área profissional a seguir.

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Formou-se no Tecnologia de Desenvolvidos de Produtos e posteriormente bacharel em Design Gráfico, em 2009. No início uma carreira voltada para criação de produtos, na sequência um passagem por diversas áreas de criação, web, off line, moda, fotografia, até criar moradia fixa no trabalho digital, como designer gráfico.
Com um olhar minimalista, alinhado e perfeccionista, tem uma linha de criação homogênea e bem característica.
Com instinto empreendedor, Fabi, se arriscou em alguns negócios. Já em Blumenau, criou o Estúdio Royal, focado em redesign de luminárias e objetos de decoração, e também idealizou a revista WAZAP em 2012, que falava sobre moda, cultura e arte, com distribuição no litoral e vale de Santa Catarina. Com identidade forte e conteúdo atemporal, a revista marcou uma época ilustre na cidade.
Depois de algumas investidas em projetos que acreditava, focou em web e aceitou a proposta de atuar no time de web da Cia Hering, onde aplicou e criou campanhas importantes para todas as marcas de varejo da companhia.
Hoje Fabi se dedica à vida de freelancer como designer, fotógrafa e DJ, de maneira plena, mas bem agitada.

Comentários #O Filho da Empregada

O “onde” de Marcelo Labes

“Só quem viveu foi que viu.”

Imagine um dos parágrafos-verso de Porque sim não é resposta, com suas três, quatro linhas, desenvolvido até o tamanho de um livro como o próprio Porque sim… E você terá uma boa ideia do que é O filho da empregada, obra recente de Marcelo Labes, escrita ano passado e que finalmente chega às mãos dos leitores em forma de papel.

Já nas primeiras páginas voltamos a enxergar no texto aquela cena arquetípica do poeta vertendo sangue nas folhas — ou, neste caso, no teclado do computador. Intensidade é uma palavrinha importante aqui.

Não poderia ser diferente, vertendo fragmentos da própria vida. Coragem é outra palavrinha importante. Honestidade também.

O novo Labes é cheio de cenas emocionais, como a mãe e o filho pegando o ônibus de manhã cedo, no frio, para ela ir trabalhar; a rotina da mãe com os patrões, onde o leitor empatiza com a personagem; o constrangimento da mãe diante do próprio filho na mesa de jantar; a discriminação das crianças ricas; e outras reminiscências, muitas vezes pungentes.

No lado mais racional, temos as ponderações do autor sobre os episódios citados; a narrativa da transformação do menino em homem; a quase hilariante, se não fosse séria, lei assinada por Médici e o autor; logo depois dessa lei, passagens filosóficas sobre religião, política e literatura; o surrealista direito de resposta dos patrões; e a réplica do filho.

Finalmente, um recado para o autor e amigo. Há um trecho que diz: “Onde é esse onde que se alcança depois de muito se esforçar?”

Aquele “onde” realmente não era o que ela dizia. Mas de um jeito muito mais valoroso, teu “onde” é tua obra, e nessa obra O Filho da Empregada ocupa um lugar muito especial. Traga mais dessas pra nós.

*Iran Silveira, março de 2016.

 

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Livro “O Filho da Empregada”, de Marcelo Labes na Biblioteca do Sesc*

“Do Filho da Empregada não posso dizer que sejam somente memórias, senão que se trata da poética das lembranças. Porque não estávamos sós, a mãe e eu: talvez disfarçássemos melhor a vida que se vivia. E éramos muitos, às seis da manhã, naqueles ônibus lotados de gente com a alma úmida.

Do Filho da Empregada posso dizer que, além de memórias, é retrato do cotidiano. Porque as empregadas ainda levam seus filhos a tiracolo, ainda são humilhadas pelas famílias de que não fazem parte todo dia de manhã.

Não posso dizer que seja acerto de contas, mesmo que pareça. Talvez venha daí a dificuldade que foi escrever sobre a gente à distância; não pode ser confortável remexer os cestos de memórias. Não se pode sair ileso dessas revisitas.

É, então, um livro de poesia sem poemas. Ou um livro de poesia de um poema só. Um anti-poema egoísta (como são todos), que procura companhia. Ou alguma outra coisa que só ao leitor pode caber decidir”.

*Do portal Timbó Net.

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Por Lucas Paraizo, para o Jornal de Santa Catarina.
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O filho da empregada*

“Quem escreve, escreve para alguém ou alguma coisa, eu escrevo pra sair da merda!”

Essa foi uma das formas com que o Labes respondeu minhas perguntas. E após ler “O Filho da Empregada”, se consegue criar um esboço sobre essa questão. É uma leitura que se divide em definidas partes afetivas e profundamente íntimas, contesta também algumas relações sociais sobre o tema exposto, exemplificando sua inquietude sobre toda essa problemática; é permeado por rimas decorando seus próprios retratos, e determinado sarcasmo e acidez como desabafo ao que foi e ao que deveria/poderia ter sido.

Como sou leitor e amigo do Marcelo, foi impossível para eu ler sem ter lembranças de sua voz como uma narrativa na minha cabeça. É um livro, um poema, que se consome por vezes dentro de si, existindo trechos que levarão dias para que eu ainda os consiga digerir, mas que estão longe de serem indigestos. Trata-se apenas de se aprofundar numa reflexão ainda maior sobre as múltiplas possibilidades descritas e pertinentes ao tema.

“Foi o servilismo bastardo vivido por tantos anos que me fez desassossegar da condição de suburbano que precisa trabalhar duro para algum futuro que talvez não desse jeito de apagar tanto buraco no estômago, tanto disfarce incômodo”…

Os entrelaçados momentos de afago poético aos gritos de descontentamento são provocativos e pertinentes em toda a leitura. Mergulhado num recorte de lembranças ele trás a tona sua infância que foi, é, e ainda será compartilhada por muita gente.

Eu me emocionei em muitos momentos da leitura, leitura essa que é também um exercício de empatia, de indagações, e ainda mais, de encantamentos. A lindeza retratada de que se pode haver poesia no cotidiano, por mais cinza, frio, molhado e, sistematicamente, duras vezes repetidas, nos faz olhar para ele com o colorido do teu sorriso farto, Marcelo. Nós fomos os convidados a desfrutar ao banquete de suas lindas páginas. Por ora, são essas as palavras.

Obrigado!

*Solano Lenfers, amigo-músico.

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Quem já teve a oportunidade de ler Porque sim não é resposta, verá no novo O filho da empregada uma espécie de continuação – não do tema, mas do estilo de escrita do autor. A obra foi escrita ano passado e finalmente chega às mãos dos leitores em forma de papel, graças à união das editoras Antítese e Hemisfério Sul.

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Eram aproximadamente 5 horas da manhã e uma lua bem cheia lá fora, uma ansiedade forte num apartamento silencioso e decidi sentar pra ler o livro “O Filho da Empregada”, foi a melhor coisa que fiz.
Durante todo tempo senti que algo me acertava em cheio, o que eu descrevo como uma série de socos na boca do estômago, dolorosos, mas por algum motivo extremamente necessários. Constantes, certeiros, dolorosos, mas necessários.
O que foi ali escrito era golpe certeiro, mas também era acalento constante. Sentir que nesse caos todo, sentimos tanto, sentir o outro, os personagens que talvez num primeiro olhar não se pareçam em nada comigo ou com a minha história, mas que depois de uma leitura se mostraram tão familiares, nesse sentimento de deslocamento que nos atinge em cheio.
Fazer parte da antítese, ser de alguma forma parte desse processo me orgulha muito e dia 12 de abril tem lançamento.

Nayara Brida, amiga e professora.

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Sobre o livro, seu autor.

Do Filho da Empregada não posso dizer que sejam somente memórias, senão que se trata da poética das lembranças. Porque não estávamos sós, a mãe e eu: talvez disfarçássemos melhor a vida que se vivia. E éramos muitos, às seis da manhã, naqueles ônibus lotados de gente com a alma úmida.

Do Filho da Empregada posso dizer que, além de memórias, é retrato do cotidiano. Porque as empregadas ainda levam seus filhos a tiracolo, ainda são humilhadas pelas famílias de que não fazem parte todo dia de manhã.

Não posso dizer que seja acerto de contas, mesmo que pareça. Talvez venha daí a dificuldade que foi escrever sobre a gente à distância; não pode ser confortável remexer os cestos de memórias. Não se pode sair ileso dessas revisitas.

É então um livro de poesia sem poemas. Ou um livro de poesia de um poema só. Um anti-poema egoísta (como são todos), que procura companhia. Ou alguma outra coisa que só ao leitor pode caber decidir.

Comentários #Porque sim não é resposta

Comentários sobre o Porque sim… quando de seu lançamento, em 2015.

10 de maio de 2015 0

Quando começou a escrever o poema Porque Sim Não É Resposta, o escritor blumenauense Marcelo Labes não imaginava o quanto ele cresceria até se tornar o livro que será lançado nesta terça-feira, 12, às 19h, no Cafundó Bar Cultural, pela editora Antítese.

Trata-se de uma, ou várias longas respostas escritas em parágrafos, curtos ou estendidos, no melhor estilo ginsberguiano:

– Quando comecei a escrevê-lo, não sabia que poderia se tornar tão grande. E assim foi por um mês, até a hora que eu precisava dar fim ao texto antes que ele desse fim a mim – brinca o poeta.

*Leo Laps, jornalista, para o Jornal de Santa Catarina.

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*Do jornal Expressão Universitária, do Sindicato de Servidores da Universidade Regional de Blumenau.

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Sobre Marcelo Labes, seu escrito e do porquê das respostas não serem tão fáceis*

Por que sim não basta. E por que não, também não funciona.
É um retrato derradeiro da realidade.
Pelo fato que as situações da vida são contraditórias.
Mesmo querendo fazer o bem, com essa nossa moral, não vamos muito longe, além, do que fazer o mal.
Por morais irrefletidas, por certezas que nos encarceram, em massa.
Complicado, simples mas não simplista, e genial. Por que faz ver, aquilo que não queremos.
Pensar aquilo que não pensamos. E se já pensamos, mais verdadeiro.
É escrita denunciativa, existencial, escrachada, escrota e ainda poética.
Sou poeta, a quem diga. Mas não leio poesia. Abri exceção para Leminski por causa de uma ex-namorada bem louca e desvairada. E para Marcelos Labes. Grande amigo não é, porque é pequeno e sou maior que ele. Grande poeta, que por influência, de certa forma, também me fez sê-lo.
É valido contar que apesar de pouco contato, nossas, minhas experiências com ele, provém de um mundo ideal. Idéias que se compartilham, o que gera tamanha identificação. Disse a um amigo de pouco tempo, mas de laços fortes. E digo o mesmo pra você, o que fez a nossa amizade não é tempo vivido, mas a maneira como compartilhamos ela, de idéias intensas e de pensamentos que só você poderia corresponder.
Li o livro 3 vezes: chorei na primeira, berrei e dei gargalhadas altas na segunda. E na terceira o xinguei em voz alta.
Por profunda sinceridade, de nunca ter vista antes um poema, repito, tão escrachado, escroto e poético, que chapasse a mente de pura poesia. Vontade que tenho é de presentear a todos com seu livro.
O escrito me leva a revoltas que tive, quando moralistas me apontaram o dedo. E sabendo que ele, uma outra pessoa, me trouxe isso, me sinto mais forte.
Descreve as remotas angústias e solidões que poucas pessoas se permitem sentir. Que às vezes nunca virão nem perceber nesta vida.
De que nossos pais e avós, tão sofridas, envelhecendo, não nos parece justo. De pessoas tão boas, e outras cheias de vida, tão à toa.
Das desigualdades sociais, mais marginais e incrédulas de existência. Permeia o texto de uma realidade que precisa ser dita. Defender o óbvio, como Beltrold Brecht.
O sentimento forte, e de compaixão, pela mulher, sim, pelo fato, de apenas serem mulheres que, sendo águias, a sociedade as põe em condições de galinha. Dizia também Leonardo Boff.
Os loucos, os alucinados, os coitados e simplesmente os incompreendidos. Que foram julgados por alguém desconhecido em meio a multidão, condenados a fogueira da loucura moderna global. E o fogo que foi aplaudido em um programa de palco de domingo.
Vendo que o mundo só se torna aquela contradição, que os homens, no inconsciente, se negam a se conscientizar, e por isso continuam dando murro em ponta de faca. E quem
ainda mais sofre essa dor é a mulheres, os pobres e fracos e os loucos.
Algumas divagações, de certa forma fictícias, mas que trazem para o leitor nada mais que a realidade.
É um grande “vá se foder”, generalizado para moral e bons costumes. E para os agentes da lei e da ordem. Pra aqueles que reclamando do pensamento pessimista, quando na verdade ele só é realista.
Eu realmente creio que o mundo ainda vai mudar, mas não enquanto não aceitarmos como ele, de fato é.
Com a maioria que não come.
E a maioria que não sonha.
É um livro contra respostas simples e teorias baratas. Falsos ativistas, e moralistas reais.
Justiceiros banais e pais que botam a culpa em seus filhos, não querendo entender, e filhos que culpam seus pais, também não querendo entender.
A vida é uma bosta. Como diria Bukowski.
Mas cabe saber na entrelinhas da vida, saber amar, pulsar. Não se matar, cortando os
impulsos.
Morrer de viver intensamente, parecendo despreocupado. Puto e preocupado.
Não se fala pra dar lição de moral, mas se comunica pra se encontrar com aqueles destemidos que ousam, às vezes, pensar como você.

*Por Ramon Lima, amigo & poeta.

***

Porque sim não é resposta “é um livro instigante e perturbador, onde o sim não é uma resposta aceitável”.

Por Iran Silveira, para o Farol Blumenau.

#Falações, por Rodrigo Oliveira

Quando foi publicado, em 2008, Falações recebeu este elogio azedo do escritor Rodrigo Oliveira:

 

Poesia Twist. Poemas com um toque de limão*

Rodrigo Oliveira

Quando eu era bem mais novo, havia um limoeiro em minha casa. Pequeninho, mas dava unscapa limõezinhos. E lá ia eu, catava um limão e, não muito esperto, chupava. Era azedo. Não tinha jeito de chupar aquilo sem fazer careta. E se tinha um corte ou uma afta na boca, pior ainda. Aquilo ardia como os diabos. E o pior é que depois de tudo isso, não tinha como não repetir o processo. E eu ficava ali. Chupava o limão azedo, fazia careta, ardia, mas continuava. Excluindo-se a possibilidade de eu ter sido uma criança não muito esperta ou possíveis tendências masoquistas, é mais ou menos isso que aconteceu quando comecei a folhear Falações, livro de poemas de Marcelo Labes.

Não foi fácil ler Falações sem fazer careta. Labes destila um suco ácido e, com frequência, azedo. E eu cá com minhas aftas e cortes, volta e meia senti arder os versos do autor. Falações se divide em quatro momentos distintos. Altenatintas abre com o solitário Até Quando e já pincela os primeiros elementos melancólicos que vêm se repetir mais tarde, e lembra, como uma escada reta em caracol, que “não se pode voltar atrás / quando se diz que ama”. Fiação e Tecelagem traz a acidez na leitura da vida operária “de 8 horas trabalhadas / e 16 de aflição” que termina com “casa na praia encostada / carro do ano passado / e plena realização: / artrite artrose bursite / aposentadoria e caixão”. É seguido pelo azedo Manhã, difícil de engolir como a constatação “Por que não respondes? / Meu Deus, / estás fria!”. No capítulo se destaca ainda O Barco, que atenta em letras garrafais “NUMA CIDADE VITRINE / FORA DE TOM É PECADO”, num retrato de um barco que “porque não navega / não pode ser afundado”. Este poema, ao lado de Fiação e Tecelagem, torna difícil sair de manhã e não rever suas linhas nas ruas da cidade. Mas ainda assim, tudo parece passar voando, quase despercebido pela maioria. Como descobre Passarinho com seu final seco e despreocupado “Que foi isso? / e virou-se para o lado. / Passarinho na janela, / disse ela”. Assim fica mais fácil concordar com o narrador em Bi-bap-dera-nudara, que pede: “Acende, Maria, o pavio / e deixa a vida explodir”. O capítulo encerra escarrando suas verdades, tentando aparentemente expeli-las, livrar-se delas com Expectorante, que tenta com força “Cuspir fora saudade, lembranças. / Cuspir fora saudade, tristeza. / Cuspir e ver escorregar. / Verde”.

Em Reflexscintos destaco o lírico Canção que parece, junto com Sapiência Cartesia uma tentativa do autor, não em definir-se, mas em encontrar-se. Chamou-me a atenção o fato de que, nos dois poemas, o poeta o é, através dos outros, nunca de si mesmo. Em Canção “Eu me chamo aquilo que dizes”, “Eu me chamo o nome que vais dizer”, “Eu chamo / a tua alegria / ao repetires o som / do meu nome” e em Sapiência Cartesiana “E os que me querem saber / acabam me sendo. / Sou todos os que me sabem eu”. O poeta, procurando encontrar-se, perde-se (ou finalmente encontra-se) no leitor. O autor deixa-se arrebatar novamente pela estética crua, curta e grossa no impactante In Vitro que encerra o beijo com trinta e dois dentes quebrados. A saudade também deixa sua acidez em Ontem e Simplificante, uma saudade que arde como limão em boca machucada.

Febres traz uma série de dez poemas. O capítulo tem, evidentemente, certa unidade semântica e mesmo estética, mas esta é solta, flertando com o non sense, os poemas bastante independentes. Dentre as febres de Labes, chamo atenção para Febre#07 onde o tornar-se adulto é chato mas sem remédio, Febre#08 com o poeta em busca do grande poema, mas termina entregando-se “escreveria o grande poema / se soubesse por que”. O ótimo Febre#10 retorna com toda a acidez e inunda nossas chagas com o ardor da constatação: “Caíram-me os pêlos, / a origem insiste. / Bicho”. Febre#12 retoma o ataque ao “Produto financiado / por bandas de rock inglês / e poetas franceses / que não compreendes”.

Por fim, intransiGENTES, encerra os capítulos num apanhado da obra. para paula (assim, em minúsculo mesmo) brinca com as palavras “plantandolorosamente um canto”. O Filósofoso “Tentou viver de ideias / e morreu de fome” e acabou por “pôr para fora as verdades / que só a ele pertenciam, e mais ninguém”. Em Iminência percebe-se “Que não valia a pena / viver sob certas iminências” e nos afogamos junto com os personagens. Mas em Findados o narrador ensina: “Vós, que morrestes, o mundo, / o mundo é sempre dos vivos”. E retoma com Cíclico sobre aqueles que se deixaram afogar: “(e há uma semana enterrado, / o que terá pensado / quando o primeiro verme matutino / veio lhe perfurar a coxa)”. Ainda assim Fatalidade parece lembrar que esse mesmo afogamento é inevitável: “Causa mortis: afogamento: não parava de chorar.” Retomando estas constatações Ratos encerra rápido, dinâmico (quase musical) e ainda ácido um apanhado de verdades roídas e a pré-ciência “Vai ter pesadelo, filhinho / e acordar com a casa inchada”.

A obra conta ainda com um ensaio de José Endoença Martins, localizando Labes dentre os poetas blumenauenses. Vale a pena ler até para descobrir novos nomes da poesia de Blumenau.

Ao espremer Falações, o leitor deve também se deparar com o mesmo sumo ácido que me chamou a atenção. E cuidado: se você também tiver algumas fissuras, a leitura pode lhe arder à boca. Se há algo de doce em Falações — e há, se dúvida — serve para aumentar o contraste com a acidez da obra. Mas se você for como eu, vai perceber que não é tão fácil largar Falações, mesmo fazendo careta. Talvez a resposta não esteja impressa no livro, mas uma pista descobri na página de rosto. Adquiri o livro do próprio autor, no lançamento, com o devido autógrafo e dedicatória. Como de costume, só li a dedicatória em casa, quando fui dar as primeiras folheadas no livro, no dia seguinte. E lá estava, na caligrafia de Labes: “Eu insisto: há que se escrever, há que se escrever mais. Vamos, então, adiante”. Talvez seja isso. Ainda que tenhamos o azedume e a acidez dos limões, é preciso escrever. É preciso ler. Afinal, como dizem por aí, se a vida nos dá a acidez dos limões, façamos, pois, limonada. Ou poesia.

*Originalmente publicado no site Sarau Eletrônico, da Biblioteca da Furb.