Os poemas de Trapaça

Já falei sobre isso, mas pensei em insistir: Trapaça não é um livro de poemas inéditos. Pelo contrário: alguns deles fizeram algum “sucesso” no Facebook, quando compartilhados na página onde posto meus poemas. No entanto, não se volta a eles. Eu mesmo tenho dificuldade de relê-los. E como o autor escreve para ser lido, pensei que em vez de repetir compartilhamentos para ganhar curtidas nessa bolha algorítmica que é a tal rede social, melhor seria selecioná-los e fazer deles livro à moda antiga, livro à moda atual, livro-livro.

Um dia, fazia muito frio, os poemas já estavam impressos e era preciso dar jeito neles, selecioná-los, de maneira que o leitor, ao ler Trapaça, conseguisse transitar por entre as letras sem maiores incômodos ou distrações. Fazia frio, e lá fomos nós, Luiza e eu, atrás dum gramado onde houvesse um raiozinho de sol que nos esquentasse e iluminasse todos aqueles papéis que trazíamos. O sol já havia ido, o frio já nos congelava, mas a seleção foi feita.

Trapaça acontece em quatro momentos.

Na primeira parte do livro, o que há são os metapoemas, poemas que falam de poemas, reclames de poeta que se descobre (indefeso) diante da Poesia. São poemas-neurose de quando se busca saída e o que se encontra é inevitavelmente o poema.

A segunda parte é leve e livre. São poemas de amor, de sol amarelo em outono, escritos à luz da presença de Luiza em minha vida. São poemas sutis, encantados, que reclamam companhia para esquentar os pés gelados no inverno e sonham um sonho de várias estações.

Para a terceira parte, separei poemas que tem como ligação entre si o tema da memória. Estão a família, aqueles anos esquisitos e de gosto ruim, que foram os 1990. A poemas dedicados a personagens da infância, como alfaiate (ou Alfaiate, nome próprio), o sujeito que vivia num quartinho-ateliê perto de casa e que foi, talvez, meu primeiro amigo. Há poemas para quem não está mais aqui e para quem continua aqui, mas se vai. São poemas doloridos, talvez. Antigos, talvez. São poemas de reencontro e de abandono: relembrar para reesquecer.

A quarta parte é despedida, desmoronamento, engavetamento de automóveis na auto-estrada. Contam-se os mortos, nós mesmos mortos. São poemas escritos diante da realidade do mundo, dessa realidade, disso que por mais que ignoremos, nos acontece e nos destrata.

Esta reunião de poemas se pretende uma seleção do que de melhor foi escrito lá na fanpage. Alguns, com muitos leitores. Alguns deles, com muitos comentários. E alguns que passaram sem que fossem percebidos no meio do bombardeio de informação das redes sociais – e que mesmo assim são considerados bons textos.

Trapaça será publicado em novembro. Logo mais, em agosto, será lançada a campanha de financiamento coletivo para a publicação do livro.

Para que ele seja publicado, para que esses poemas existam-de-fato num exemplar, conto contigo!

 

 

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Comentários #O Filho da Empregada

O “onde” de Marcelo Labes

“Só quem viveu foi que viu.”

Imagine um dos parágrafos-verso de Porque sim não é resposta, com suas três, quatro linhas, desenvolvido até o tamanho de um livro como o próprio Porque sim… E você terá uma boa ideia do que é O filho da empregada, obra recente de Marcelo Labes, escrita ano passado e que finalmente chega às mãos dos leitores em forma de papel.

Já nas primeiras páginas voltamos a enxergar no texto aquela cena arquetípica do poeta vertendo sangue nas folhas — ou, neste caso, no teclado do computador. Intensidade é uma palavrinha importante aqui.

Não poderia ser diferente, vertendo fragmentos da própria vida. Coragem é outra palavrinha importante. Honestidade também.

O novo Labes é cheio de cenas emocionais, como a mãe e o filho pegando o ônibus de manhã cedo, no frio, para ela ir trabalhar; a rotina da mãe com os patrões, onde o leitor empatiza com a personagem; o constrangimento da mãe diante do próprio filho na mesa de jantar; a discriminação das crianças ricas; e outras reminiscências, muitas vezes pungentes.

No lado mais racional, temos as ponderações do autor sobre os episódios citados; a narrativa da transformação do menino em homem; a quase hilariante, se não fosse séria, lei assinada por Médici e o autor; logo depois dessa lei, passagens filosóficas sobre religião, política e literatura; o surrealista direito de resposta dos patrões; e a réplica do filho.

Finalmente, um recado para o autor e amigo. Há um trecho que diz: “Onde é esse onde que se alcança depois de muito se esforçar?”

Aquele “onde” realmente não era o que ela dizia. Mas de um jeito muito mais valoroso, teu “onde” é tua obra, e nessa obra O Filho da Empregada ocupa um lugar muito especial. Traga mais dessas pra nós.

*Iran Silveira, março de 2016.

 

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Livro “O Filho da Empregada”, de Marcelo Labes na Biblioteca do Sesc*

“Do Filho da Empregada não posso dizer que sejam somente memórias, senão que se trata da poética das lembranças. Porque não estávamos sós, a mãe e eu: talvez disfarçássemos melhor a vida que se vivia. E éramos muitos, às seis da manhã, naqueles ônibus lotados de gente com a alma úmida.

Do Filho da Empregada posso dizer que, além de memórias, é retrato do cotidiano. Porque as empregadas ainda levam seus filhos a tiracolo, ainda são humilhadas pelas famílias de que não fazem parte todo dia de manhã.

Não posso dizer que seja acerto de contas, mesmo que pareça. Talvez venha daí a dificuldade que foi escrever sobre a gente à distância; não pode ser confortável remexer os cestos de memórias. Não se pode sair ileso dessas revisitas.

É, então, um livro de poesia sem poemas. Ou um livro de poesia de um poema só. Um anti-poema egoísta (como são todos), que procura companhia. Ou alguma outra coisa que só ao leitor pode caber decidir”.

*Do portal Timbó Net.

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Por Lucas Paraizo, para o Jornal de Santa Catarina.
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O filho da empregada*

“Quem escreve, escreve para alguém ou alguma coisa, eu escrevo pra sair da merda!”

Essa foi uma das formas com que o Labes respondeu minhas perguntas. E após ler “O Filho da Empregada”, se consegue criar um esboço sobre essa questão. É uma leitura que se divide em definidas partes afetivas e profundamente íntimas, contesta também algumas relações sociais sobre o tema exposto, exemplificando sua inquietude sobre toda essa problemática; é permeado por rimas decorando seus próprios retratos, e determinado sarcasmo e acidez como desabafo ao que foi e ao que deveria/poderia ter sido.

Como sou leitor e amigo do Marcelo, foi impossível para eu ler sem ter lembranças de sua voz como uma narrativa na minha cabeça. É um livro, um poema, que se consome por vezes dentro de si, existindo trechos que levarão dias para que eu ainda os consiga digerir, mas que estão longe de serem indigestos. Trata-se apenas de se aprofundar numa reflexão ainda maior sobre as múltiplas possibilidades descritas e pertinentes ao tema.

“Foi o servilismo bastardo vivido por tantos anos que me fez desassossegar da condição de suburbano que precisa trabalhar duro para algum futuro que talvez não desse jeito de apagar tanto buraco no estômago, tanto disfarce incômodo”…

Os entrelaçados momentos de afago poético aos gritos de descontentamento são provocativos e pertinentes em toda a leitura. Mergulhado num recorte de lembranças ele trás a tona sua infância que foi, é, e ainda será compartilhada por muita gente.

Eu me emocionei em muitos momentos da leitura, leitura essa que é também um exercício de empatia, de indagações, e ainda mais, de encantamentos. A lindeza retratada de que se pode haver poesia no cotidiano, por mais cinza, frio, molhado e, sistematicamente, duras vezes repetidas, nos faz olhar para ele com o colorido do teu sorriso farto, Marcelo. Nós fomos os convidados a desfrutar ao banquete de suas lindas páginas. Por ora, são essas as palavras.

Obrigado!

*Solano Lenfers, amigo-músico.

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Quem já teve a oportunidade de ler Porque sim não é resposta, verá no novo O filho da empregada uma espécie de continuação – não do tema, mas do estilo de escrita do autor. A obra foi escrita ano passado e finalmente chega às mãos dos leitores em forma de papel, graças à união das editoras Antítese e Hemisfério Sul.

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Eram aproximadamente 5 horas da manhã e uma lua bem cheia lá fora, uma ansiedade forte num apartamento silencioso e decidi sentar pra ler o livro “O Filho da Empregada”, foi a melhor coisa que fiz.
Durante todo tempo senti que algo me acertava em cheio, o que eu descrevo como uma série de socos na boca do estômago, dolorosos, mas por algum motivo extremamente necessários. Constantes, certeiros, dolorosos, mas necessários.
O que foi ali escrito era golpe certeiro, mas também era acalento constante. Sentir que nesse caos todo, sentimos tanto, sentir o outro, os personagens que talvez num primeiro olhar não se pareçam em nada comigo ou com a minha história, mas que depois de uma leitura se mostraram tão familiares, nesse sentimento de deslocamento que nos atinge em cheio.
Fazer parte da antítese, ser de alguma forma parte desse processo me orgulha muito e dia 12 de abril tem lançamento.

Nayara Brida, amiga e professora.

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Sobre o livro, seu autor.

Do Filho da Empregada não posso dizer que sejam somente memórias, senão que se trata da poética das lembranças. Porque não estávamos sós, a mãe e eu: talvez disfarçássemos melhor a vida que se vivia. E éramos muitos, às seis da manhã, naqueles ônibus lotados de gente com a alma úmida.

Do Filho da Empregada posso dizer que, além de memórias, é retrato do cotidiano. Porque as empregadas ainda levam seus filhos a tiracolo, ainda são humilhadas pelas famílias de que não fazem parte todo dia de manhã.

Não posso dizer que seja acerto de contas, mesmo que pareça. Talvez venha daí a dificuldade que foi escrever sobre a gente à distância; não pode ser confortável remexer os cestos de memórias. Não se pode sair ileso dessas revisitas.

É então um livro de poesia sem poemas. Ou um livro de poesia de um poema só. Um anti-poema egoísta (como são todos), que procura companhia. Ou alguma outra coisa que só ao leitor pode caber decidir.

Comentários #Porque sim não é resposta

Comentários sobre o Porque sim… quando de seu lançamento, em 2015.

10 de maio de 2015 0

Quando começou a escrever o poema Porque Sim Não É Resposta, o escritor blumenauense Marcelo Labes não imaginava o quanto ele cresceria até se tornar o livro que será lançado nesta terça-feira, 12, às 19h, no Cafundó Bar Cultural, pela editora Antítese.

Trata-se de uma, ou várias longas respostas escritas em parágrafos, curtos ou estendidos, no melhor estilo ginsberguiano:

– Quando comecei a escrevê-lo, não sabia que poderia se tornar tão grande. E assim foi por um mês, até a hora que eu precisava dar fim ao texto antes que ele desse fim a mim – brinca o poeta.

*Leo Laps, jornalista, para o Jornal de Santa Catarina.

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*Do jornal Expressão Universitária, do Sindicato de Servidores da Universidade Regional de Blumenau.

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Sobre Marcelo Labes, seu escrito e do porquê das respostas não serem tão fáceis*

Por que sim não basta. E por que não, também não funciona.
É um retrato derradeiro da realidade.
Pelo fato que as situações da vida são contraditórias.
Mesmo querendo fazer o bem, com essa nossa moral, não vamos muito longe, além, do que fazer o mal.
Por morais irrefletidas, por certezas que nos encarceram, em massa.
Complicado, simples mas não simplista, e genial. Por que faz ver, aquilo que não queremos.
Pensar aquilo que não pensamos. E se já pensamos, mais verdadeiro.
É escrita denunciativa, existencial, escrachada, escrota e ainda poética.
Sou poeta, a quem diga. Mas não leio poesia. Abri exceção para Leminski por causa de uma ex-namorada bem louca e desvairada. E para Marcelos Labes. Grande amigo não é, porque é pequeno e sou maior que ele. Grande poeta, que por influência, de certa forma, também me fez sê-lo.
É valido contar que apesar de pouco contato, nossas, minhas experiências com ele, provém de um mundo ideal. Idéias que se compartilham, o que gera tamanha identificação. Disse a um amigo de pouco tempo, mas de laços fortes. E digo o mesmo pra você, o que fez a nossa amizade não é tempo vivido, mas a maneira como compartilhamos ela, de idéias intensas e de pensamentos que só você poderia corresponder.
Li o livro 3 vezes: chorei na primeira, berrei e dei gargalhadas altas na segunda. E na terceira o xinguei em voz alta.
Por profunda sinceridade, de nunca ter vista antes um poema, repito, tão escrachado, escroto e poético, que chapasse a mente de pura poesia. Vontade que tenho é de presentear a todos com seu livro.
O escrito me leva a revoltas que tive, quando moralistas me apontaram o dedo. E sabendo que ele, uma outra pessoa, me trouxe isso, me sinto mais forte.
Descreve as remotas angústias e solidões que poucas pessoas se permitem sentir. Que às vezes nunca virão nem perceber nesta vida.
De que nossos pais e avós, tão sofridas, envelhecendo, não nos parece justo. De pessoas tão boas, e outras cheias de vida, tão à toa.
Das desigualdades sociais, mais marginais e incrédulas de existência. Permeia o texto de uma realidade que precisa ser dita. Defender o óbvio, como Beltrold Brecht.
O sentimento forte, e de compaixão, pela mulher, sim, pelo fato, de apenas serem mulheres que, sendo águias, a sociedade as põe em condições de galinha. Dizia também Leonardo Boff.
Os loucos, os alucinados, os coitados e simplesmente os incompreendidos. Que foram julgados por alguém desconhecido em meio a multidão, condenados a fogueira da loucura moderna global. E o fogo que foi aplaudido em um programa de palco de domingo.
Vendo que o mundo só se torna aquela contradição, que os homens, no inconsciente, se negam a se conscientizar, e por isso continuam dando murro em ponta de faca. E quem
ainda mais sofre essa dor é a mulheres, os pobres e fracos e os loucos.
Algumas divagações, de certa forma fictícias, mas que trazem para o leitor nada mais que a realidade.
É um grande “vá se foder”, generalizado para moral e bons costumes. E para os agentes da lei e da ordem. Pra aqueles que reclamando do pensamento pessimista, quando na verdade ele só é realista.
Eu realmente creio que o mundo ainda vai mudar, mas não enquanto não aceitarmos como ele, de fato é.
Com a maioria que não come.
E a maioria que não sonha.
É um livro contra respostas simples e teorias baratas. Falsos ativistas, e moralistas reais.
Justiceiros banais e pais que botam a culpa em seus filhos, não querendo entender, e filhos que culpam seus pais, também não querendo entender.
A vida é uma bosta. Como diria Bukowski.
Mas cabe saber na entrelinhas da vida, saber amar, pulsar. Não se matar, cortando os
impulsos.
Morrer de viver intensamente, parecendo despreocupado. Puto e preocupado.
Não se fala pra dar lição de moral, mas se comunica pra se encontrar com aqueles destemidos que ousam, às vezes, pensar como você.

*Por Ramon Lima, amigo & poeta.

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Porque sim não é resposta “é um livro instigante e perturbador, onde o sim não é uma resposta aceitável”.

Por Iran Silveira, para o Farol Blumenau.

#Falações, por Rodrigo Oliveira

Quando foi publicado, em 2008, Falações recebeu este elogio azedo do escritor Rodrigo Oliveira:

 

Poesia Twist. Poemas com um toque de limão*

Rodrigo Oliveira

Quando eu era bem mais novo, havia um limoeiro em minha casa. Pequeninho, mas dava unscapa limõezinhos. E lá ia eu, catava um limão e, não muito esperto, chupava. Era azedo. Não tinha jeito de chupar aquilo sem fazer careta. E se tinha um corte ou uma afta na boca, pior ainda. Aquilo ardia como os diabos. E o pior é que depois de tudo isso, não tinha como não repetir o processo. E eu ficava ali. Chupava o limão azedo, fazia careta, ardia, mas continuava. Excluindo-se a possibilidade de eu ter sido uma criança não muito esperta ou possíveis tendências masoquistas, é mais ou menos isso que aconteceu quando comecei a folhear Falações, livro de poemas de Marcelo Labes.

Não foi fácil ler Falações sem fazer careta. Labes destila um suco ácido e, com frequência, azedo. E eu cá com minhas aftas e cortes, volta e meia senti arder os versos do autor. Falações se divide em quatro momentos distintos. Altenatintas abre com o solitário Até Quando e já pincela os primeiros elementos melancólicos que vêm se repetir mais tarde, e lembra, como uma escada reta em caracol, que “não se pode voltar atrás / quando se diz que ama”. Fiação e Tecelagem traz a acidez na leitura da vida operária “de 8 horas trabalhadas / e 16 de aflição” que termina com “casa na praia encostada / carro do ano passado / e plena realização: / artrite artrose bursite / aposentadoria e caixão”. É seguido pelo azedo Manhã, difícil de engolir como a constatação “Por que não respondes? / Meu Deus, / estás fria!”. No capítulo se destaca ainda O Barco, que atenta em letras garrafais “NUMA CIDADE VITRINE / FORA DE TOM É PECADO”, num retrato de um barco que “porque não navega / não pode ser afundado”. Este poema, ao lado de Fiação e Tecelagem, torna difícil sair de manhã e não rever suas linhas nas ruas da cidade. Mas ainda assim, tudo parece passar voando, quase despercebido pela maioria. Como descobre Passarinho com seu final seco e despreocupado “Que foi isso? / e virou-se para o lado. / Passarinho na janela, / disse ela”. Assim fica mais fácil concordar com o narrador em Bi-bap-dera-nudara, que pede: “Acende, Maria, o pavio / e deixa a vida explodir”. O capítulo encerra escarrando suas verdades, tentando aparentemente expeli-las, livrar-se delas com Expectorante, que tenta com força “Cuspir fora saudade, lembranças. / Cuspir fora saudade, tristeza. / Cuspir e ver escorregar. / Verde”.

Em Reflexscintos destaco o lírico Canção que parece, junto com Sapiência Cartesia uma tentativa do autor, não em definir-se, mas em encontrar-se. Chamou-me a atenção o fato de que, nos dois poemas, o poeta o é, através dos outros, nunca de si mesmo. Em Canção “Eu me chamo aquilo que dizes”, “Eu me chamo o nome que vais dizer”, “Eu chamo / a tua alegria / ao repetires o som / do meu nome” e em Sapiência Cartesiana “E os que me querem saber / acabam me sendo. / Sou todos os que me sabem eu”. O poeta, procurando encontrar-se, perde-se (ou finalmente encontra-se) no leitor. O autor deixa-se arrebatar novamente pela estética crua, curta e grossa no impactante In Vitro que encerra o beijo com trinta e dois dentes quebrados. A saudade também deixa sua acidez em Ontem e Simplificante, uma saudade que arde como limão em boca machucada.

Febres traz uma série de dez poemas. O capítulo tem, evidentemente, certa unidade semântica e mesmo estética, mas esta é solta, flertando com o non sense, os poemas bastante independentes. Dentre as febres de Labes, chamo atenção para Febre#07 onde o tornar-se adulto é chato mas sem remédio, Febre#08 com o poeta em busca do grande poema, mas termina entregando-se “escreveria o grande poema / se soubesse por que”. O ótimo Febre#10 retorna com toda a acidez e inunda nossas chagas com o ardor da constatação: “Caíram-me os pêlos, / a origem insiste. / Bicho”. Febre#12 retoma o ataque ao “Produto financiado / por bandas de rock inglês / e poetas franceses / que não compreendes”.

Por fim, intransiGENTES, encerra os capítulos num apanhado da obra. para paula (assim, em minúsculo mesmo) brinca com as palavras “plantandolorosamente um canto”. O Filósofoso “Tentou viver de ideias / e morreu de fome” e acabou por “pôr para fora as verdades / que só a ele pertenciam, e mais ninguém”. Em Iminência percebe-se “Que não valia a pena / viver sob certas iminências” e nos afogamos junto com os personagens. Mas em Findados o narrador ensina: “Vós, que morrestes, o mundo, / o mundo é sempre dos vivos”. E retoma com Cíclico sobre aqueles que se deixaram afogar: “(e há uma semana enterrado, / o que terá pensado / quando o primeiro verme matutino / veio lhe perfurar a coxa)”. Ainda assim Fatalidade parece lembrar que esse mesmo afogamento é inevitável: “Causa mortis: afogamento: não parava de chorar.” Retomando estas constatações Ratos encerra rápido, dinâmico (quase musical) e ainda ácido um apanhado de verdades roídas e a pré-ciência “Vai ter pesadelo, filhinho / e acordar com a casa inchada”.

A obra conta ainda com um ensaio de José Endoença Martins, localizando Labes dentre os poetas blumenauenses. Vale a pena ler até para descobrir novos nomes da poesia de Blumenau.

Ao espremer Falações, o leitor deve também se deparar com o mesmo sumo ácido que me chamou a atenção. E cuidado: se você também tiver algumas fissuras, a leitura pode lhe arder à boca. Se há algo de doce em Falações — e há, se dúvida — serve para aumentar o contraste com a acidez da obra. Mas se você for como eu, vai perceber que não é tão fácil largar Falações, mesmo fazendo careta. Talvez a resposta não esteja impressa no livro, mas uma pista descobri na página de rosto. Adquiri o livro do próprio autor, no lançamento, com o devido autógrafo e dedicatória. Como de costume, só li a dedicatória em casa, quando fui dar as primeiras folheadas no livro, no dia seguinte. E lá estava, na caligrafia de Labes: “Eu insisto: há que se escrever, há que se escrever mais. Vamos, então, adiante”. Talvez seja isso. Ainda que tenhamos o azedume e a acidez dos limões, é preciso escrever. É preciso ler. Afinal, como dizem por aí, se a vida nos dá a acidez dos limões, façamos, pois, limonada. Ou poesia.

*Originalmente publicado no site Sarau Eletrônico, da Biblioteca da Furb.

Andréia Peres entrevista Marcelo Labes

Andréia Peres é amiga e provocadora. Não sei se até hoje tínhamos conversado tanto sobre literatura (“conversado” porque é exatamente assim que convivemos, eletronicamente). Então ela me fez umas perguntas cabeludas, que me dispus a responder e o resultado segue aqui embaixo.

Andréia Peres: Você sente uma certa culpa artística quando o artista não está caminhando nessa vertente de manifestações políticas e feministas (de gênero)? Acredita que a obra tenha de ser direcionada socialmente?

 Marcelo Labes: Não há culpa. Tenho admiração por quem trata de temas tão importantes como a LGBTfobia na sua literatura – quando faz isso bem, por exemplo. É preciso saber a distância que há entre um panfleto e um poema. O panfleto informa, chama atenção pra temas importantes. O poema habita outro mundo, tem outra importância. A poesia engajada às vezes incomoda mais que ajuda, de fato, a luta em função da qual é escrita. Porque a linguagem literária confunde a língua (ou deveria confundi-la). Gosto da definição de Roman Jakobson, quando diz que a literatura é uma violência organizada contra a fala comum. Acredito nisso, procuro escrever assim meus poemas.

Às vezes parece que se a poesia não é engajada, seu autor não é engajado. Mas a poesia, em si, não acaba com o capitalismo, tampouco evita que homossexuais sejam brutalmente assassinados. O que quero dizer é: a poesia, só, não muda muita coisa, mesmo que as palavras escritas sejam brutalmente revolucionárias. O autor pode ser engajado e não conseguir comunicar poeticamente com suas palavras, como pode não ser engajado em qualquer movimento social e colaborar com suas palavras para a reflexão de um determinado movimento.

Tenho poemas assim. O Cheiro de Povo, por exemplo, é uma resposta ao General Figueiredo e àquela frase em que ele diz preferir cheiro de cavalo a cheiro de povo. É um poema para ser declamado na praça, foi escrito para isso. Mas não é minha maior preocupação quando sento para escrever um poema. Se o autor vive sua realidade (a nossa dura realidade), sua poesia dialogará com o real. Mas se insistir em falar de racismo, machismo, homofobia sem dialogar com o poético, então escreverá panfletos, não poemas. Gosto de acreditar no que diz Edu Barreto, poeta paraguaio que declama nas praças de Asunción, que a poesia nos salvará da realidade. Mas não somente ela. Se não fizermos nossa parte, nem a poesia dará conta desse poço sem fundo em que viemos nos afogando.

 

AP: O que te define e o que você deseja ser como um artista literário?

ML: Não sei o que me define. Penso pouco nisso. Acho que o eu-poeta acontece em diversos planos de uma mesma realidade. Tanto é assim que Trapaça tem quatro partes, como Falações também tem. No fundo, não passo de mais um trabalhador-estudante-rapaz-latino-americano-sem-dinheiro-no-banco etc. e tal. E nessa correria de nunca ter tido tranqüilidade com a realidade do mundo e com a minha própria, me acostumei a escrever. Meus poemas não são curtos porque soam esteticamente melhor assim. Eles são curtos porque são escritos na correria, no meio do trabalho, no meio da aula, no trajeto de ônibus de casa para o trabalho, na volta para casa, depois de passar no mercado ou comprar cigarros. E isso de definir é esquisito, porque eu mesmo já encrenquei com isso quando realizamos o Processo de Despedida. Aquela era uma mostra fotográfica, mas eu não via fotos ali, via poemas. Se eu faço uma canção, não vejo a canção como um músico, um compositor; vejo como poeta. Então se é pra definir, diria que sou poeta que procuro por linguagens porque tenho necessidade de falar, de expor, de provocar. Botar pra fora mesmo, seja da maneira que for.

 

Como todo mundo que escreve, desejo ser lido – mas isso já vem acontecendo. Então, claro, quero ser mais lido. Quando se tem um livro pronto e parece que fechou um círculo, na verdade o círculo está é se abrindo. Porque é a partir da publicação do livro que começam os encontros, os desencontros, as críticas, as conversas. E quando alguém te interpela falando de algo que tu escreveste, é como se tudo fizesse sentido, ali naquele momento. Uma conversa com um leitor atento valerá sempre muito mais do que uma resenha acadêmica ou do que uma menção numa mesa-redonda sobre literatura produzida sei lá onde, sei lá por quê. No fim, meu desejo é comunicar e me livrar de tanta angústia, disso tudo que absorvo, que trago comigo e que preciso fazer sair por essa válvula de escape que é o poema, que é a poesia.

 

AP: Existe amor em Paraty?

ML: Quase não. Ou muito. Depende de onde se anda. Da Flip já tinha ouvido falar muito mal, fosse pelo Marcelo Mirisola, que denuncia essa politicagem literária do mainstream, fosse pelos blogs que denunciam que a festa literária serve mesmo é pra se ganhar dinheiro. Estar lá foi isso, perceber isso. Mas nem tudo são carros caros e senhoras caquéticas que perdem a elegância. Tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, onde a luz da Flip não bate diretamente. O pouco que vivi por lá foi para aprender isso.

 

Primeiro que a Flip nunca contemplou os autores locais. É dessa invisibilidade imposta que surge a Off-Flip. E é na Off-Flip que acontece o que realmente importa. Não são divagações acadêmicas ou a Heloísa Buarque de Hollanda explicando que marginal, nos anos 1970, era o autor à margem das grandes editoras, diferente de hoje, quando marginal significa marginal mesmo (?). Não. Ali tem muita gente foda, gente que está produzindo seus próprios livros, arrumando maneiras de publicar com baixo custo. Tem o pessoal dos slams de São Paulo e do Rio de Janeiro. Um sem-fim de gente que produz e publica com muito esforço, que se reúne para fazer a poesia sobreviver e ir adiante. E isso não acontece sob os holofotes da Flip. Acontece exatamente onde a luz não bate direito. Ali sim. Ali pode se dizer que existe amor.

 

 

AP: Se fosse nomear um livro para ler e admirar e depois olhar pra trás e ver que era razoável e não a razão de ser poeta, qual seria?

ML: Meu primeiro livro de poemas foi Espumas Flutuantes, de Castro Alves. Romântico abolicionista, aquilo fazia doer, e eu ainda era criança. O baiano colaborou com o trágico que me habita, principalmente. E com o tom de denúncia, de preocupação com o que acontece à volta. E por muito tempo, adolescente ainda, quis escrever como ele, com a perfeição da métrica, o ritmo, as rimas perfeitas. Quando finalmente desbaratinei dessa onda romântica, foi pelo contato com Manuel Bandeira, numa antologia de 1968, roubada de uma biblioteca por um amigo meu. Bandeira me proporcionou liberdade na escrita: percebi que podia escrever sobre o que quisesse, que ainda assim seria poesia. Isso naquele momento. Fui entender como o cotidiano se torna poético com Mário Quintana e seu Caderno H. E depois vieram vários outros autores, vivos e mortos, de perto e de longe. Mas o responsável pelo interesse por poesia foi Castro Alves, lá na metade dos anos 1990. Continua sendo uma grande obra, mesmo que se distancie de tudo quanto escrevo ultimamente.

AP: Nesse sentido, que referências acabam sendo involuntárias ou propositais? Há livro pra ser lido e livro pra ser apenas referência?

 

ML: Poeta deveria gostar de ler poesia. Voltei a ler poesia faz pouco tempo, com um livro de Rubens da Cunha, o Curral. Então passei um tempo sem ler novamente e comprei uma coleção de livros de poesia por um preço bem barato. Dos doze livros que chegaram, li seis. Dos seis, três foram especiais. Autoplágio, de Wilson Caritta; Livre-me, de Caio Carmacho e Domingo no Matadouro, de Marcelo Pierotti. Havia algo que me distanciava de ler poesia, como se isso fosse atrapalhar minha escrita. Descobri que não. Ler estes autores me fez escrever mais. A admiração, em literatura, deve sempre se tornar escrita nova. Acho que já estou um pouco além da imitação, do plágio autoral de quando se começa a escrever. Marcelo Mirisola diz que há autores que são como encostos, e quando a gente senta pra escrever, eles estão ali com a gente. Com ele, teria sido assim com Henri Miller. Quanto a mim, carrego um monte de fantasmas comigo, mas nunca sei direito quem são. Não reconheço seus rostos.

 

As referências para escrever poesia não precisam, necessariamente, vir de dentro da produção poética. Digo: li muito mais romances do que livros de poesia. Posso discorrer algumas horas sobre Saramago, Sartre, Camus, Nizan, García Márquez, Kafka e Miller. Sou admirador da obra de Cony, acho que Mirisola é o que temos de melhor na prosa e me encanto com Godofredo de Oliveira Neto. Flerto com Bolaño, embora só tenha conseguido terminar de ler os Detetives Selvagens. Ou seja: conheço pouco de poesia que possa usar de referência, de bandeira, como quem diz: “Venham por aqui!”. Reli por muito tempo os mesmos livros, em geral de autores que viveram aqui em Blumenau e que são quase desconhecidos. Para além de Lindolf Bell, que a maioria das pessoas conhece só de nome, tivemos uma produção nas décadas de 1980 e 1990 de autores ilustres, importantíssimos, como o Mauro Galvão, o Endoença Martins, Douglas Zunino, Dennis Radünz, Marcelo Steil. E essa produção segue sendo ignorada. Relê-los é uma forma de insistir que permaneçam, que a obra permaneça e que sejam finalmente reconhecidos.

 

E quanto às referências, bom, tudo é referência. Tudo. Este ano me formo em ciências sociais. O que isso tem a ver com literatura? A resposta é simples: nada! Mas é referência. Meu pai está com câncer, descoberto já avançado, e agora passa por aqueles tratamentos tradicionalmente cruéis. O que isso tem a ver com poesia? É combustível. Das bulas de remédio aos livros de teoria política, dos seriados estadunidenses aos filmes arrastados de Tarkovsky, o poeta precisa estar atento. Porque o poema habita onde a gente nem espera. As palavras estão soltas por aí e é preciso algum cuidado para juntá-las num verso, numa estrofe.

 

Então se fosse dizer que livros devem ser lidos, eu diria que os livros que já estão sendo lidos. Cânones servem pra alimentar o olhar cult-chic de gente que leu uma lista pronta de livros muito importantes, mas pergunto: importantes pra quem? E nessas listas de livros-que-devem-ser-lidos, a importância de uns aumenta enquanto a de outros diminui, dependendo do que se discute no momento e qual a lista de filmes indicados para receber o Oscar naquele ano. De repente, as pessoas se lembram da geração beat, porque se filmou algo de Kerouak ou de Ginsberg, e naquele ano quem não tem um On the road embaixo do braço não pode participar da roda de conversa.

 

Livro importante é aquele que nos arrebata, que nos fode a vida, que nos faz pensar e repensar a importância da literatura. Nesse sentido, e finalmente respondendo à pergunta: sim, tem muito livro que se lê por obrigação, quase que para se ter assunto na fila de entrada da Flip, por exemplo, sob o sol quente de Paraty.

 

AP: Há uma grande necessidade de se inserir conteúdo cultural nos projetos artísticos. Ainda há pouco reconhecimento da diferença entre Arte e Cultura. Quais outros meios em que o artista pode difundir sua cultura sem ser através de sua obra (seja literária, plástica ou fotográfica)?,

ML: Em Paraty, participamos, Luiza e eu, de uma feira de editoras independentes. Achei o máximo a idéia. Então levamos livros meus, da Urda Alice Klueger, da Cláudia Iara Vetter, do Luís Ramil e do Gregory Haertel. Quem vive aqui, sabe o peso desses nomes. Pensei: vou poder entregar esta segunda edição de Aguardo, do Gregory, nas mãos de pessoas que encontrarão ali tudo aquilo que encontrei enquanto lia. Besteira. Era uma feira de design gráfico, onde participavam editoras e ilustradores. Não havia ali espaço para livros, de nenhuma forma.

 

Quem chamou atenção para isso foi Luiza, quando disse que nossos livros ali expostos não piscavam nem explodiam ou faziam cambalhotas. Acredito que o design gráfico vem com uma linguagem forte em aparência – e até mesmo em significado, por que não? – e que dá a entender que o livro, por si só, com as palavras umas depois das outras, perdeu seu significado. Acredito que se trate de um fenômeno em que a linguagem de fanzine, as colagens, as palavras soltas, entraram numa onda de superespecialização e industrialização. A arte gráfica engole a literatura.

 

Mas eu queria dizer outra coisa, pra responder à pergunta: o artista precisa fazer arte. Sua arte. Se ele é culto ou inculto, onde está o interesse? Se os poemas que um ex-presidiário (palavras dele) vende na frente do supermercado me são mais importantes do que as palavras de Pessoa, vão me perguntar quem é mais culto? E se eu dissesse que Pessoa era culto da cultura dele, e que o cara ali é culto de uma cultura que Pessoa nunca poderia ter experimentado? Eu sou muito chato com poesia. Ou gosto ou não gosto. E não tem isso de “talvez daqui a um tempo”. Tem muita poesia ruim sendo escrita, publicada, compartilhada em redes sociais. Palavras soltas e sem significado que ganham a alcunha de poesia por serem escritas em versos. Mas tem muita poesia – e muito boa, com muito conteúdo etc. – que é simplesmente ignorada, porque o cara não é um Manoel de Barros ou [agora que a ressuscitaram] a Ana C.

 

E não tenho idéia de onde vem isso, mas suponho que da academia. Porque podemos dizer “ah, a academia tem seus valores, suas virtudes”. Não nego que tenha. Mas a academia tem seus vícios e, se analisarmos isso via Bourdieu, veremos que é um campo em conflito, eternamente em conflito. Então que se sou poeta e não tenho amigos para me garantir valor simbólico dentro da academia, estarei condenado a vagar com meus poemas à margem dela, o que é lindo! Há quem não suporte estar à margem da academia e das revistas “especializadas”, então vem com isso de cultura. Textão de Facebook falando de cultura. Não é necessário. O artista precisa garantir sua arte. Sobre o quanto é culto, isso não deveria nos interessar, a menos que precisássemos votar no sujeito para presidente de clube de masturbação teórica. Mas daí, já não interessaria o que ele escreve, se escreve, mas quantos livros canônicos conseguiu engolir sem mastigar.

 

AP: Há o estudo e análise morfológica e semântica e outras interpretações dos poemas, que atravessa uma geração de grades curriculares, que competem aos professores de ensino médio e faculdade de Letras fazerem seus alunos estudarem. Me dê sua visão.

ML: Há análise de tudo, menos análise subjetiva e pessoal do poema. Há encaixotamento acadêmico, engavetamento teórico – mas as pessoas não dizem com o que se identificam, a parte do poema que mais dói ou faz sorrir. Quero dizer: a literatura ensinada nas escolas serve pra quê mesmo? A escola é exclusiva, primeiramente. Parece querer incluir, mas é um mecanismo de exclusão. Se não, por que, por exemplo, nas escolas de Blumenau, ao se falar de poesia, se fala de Camões, de Drummond, de sei-lá-quem-que-já-morreu, mas pouco se chama o Douglas Zunino, por exemplo, que está vivo, é um poeta vivo e vive aqui em Blumenau?

 

É mais ou menos assim: repete-se o cânone até que ele petrifique. Daí em diante, até que surja outro “grande poeta”, a gente vai ruminar os mesmos poemas à exaustão. Então que o professor fica diante da sala de aula tentando explicar como é importante a pedra no meio do caminho, mas ignora que existam ali mesmo, diante dele, estudantes ouvintes e compositores de rap, que escutam e fazem muita boa, e que tem de parar seu raciocínio poético para pensar na pedra de Drummond. Telúrico só faz sentido depois que a gente procura no dicionário. De qualquer forma, só li essa palavra em Drummond.

 

Eu tenho é o saco cheio da maioria desse estudos de literatura. Primeiro porque falta a compreensão de que gramática, sintaxe e morfologia interessam a muito pouca gente. Depois que se esconde a exclusão das notas, por professores e métodos de ensino, sob o manto de um interesse na literatura que não interessa, muitas vezes, nem mesmo quem ensina. Quando cursava letras, numa cadeira de literatura portuguesa (a segunda cadeira de literatura portuguesa), o ano estava acabando e ainda não havíamos falado de Saramago e Lobo Antunes. Passamos por tudo, das cantigas de amor e de amigo ao sarcasmo de Bocage, mas nada de literatura portuguesa contemporânea. Quando questionei a respeito, a resposta foi que o pouco tempo não nos permitiria falar desses autores. Mas se não íamos falar deles, especificamente deles, por que então haver uma cadeira de literatura portuguesa? Pra de novo lermos aquelas cantigas de amigo, em galego-português, que todo mundo faz que sim, mas entende coisa nenhuma?

 

Sim, há que se estudar a língua portuguesa. Mas pode-se fazer isso de maneiras menos doloridas. Ou a gente ainda vai insistir em falar da importância de Camões pra quem tem internet no celular e não sabe como se virar nesta vida, neste mundo, neste caos em que a gente vive? Pode-se falar de literatura e poesia, mas não precisamos retomar sempre e de novo os clássicos, como se disso dependesse a compreensão da literatura produzida hoje. Quem lê os clássicos, que vive repetindo a importância da alta literatura, nunca vai entender a poesia de rua, do rap, da gurizada que está compondo e cantando a partir de sua realidade. Pode-se buscar um diálogo entre o novo e o antigo, mas é um erro partir sempre da premissa de que é importante saber de onde viemos para entender para onde vamos. Em se tratando de literatura, esta busca de origem afasta mais do que aproxima a juventude da literatura que se produz hoje em dia.

 

 

 

A arte de Meow by Miu

Quando aceitou o convite para levar adiante o projeto de Trapaça, Andréia Peres disse que queria a capa. Eu disse que sim, sem dúvida, porque sabia que a capa do livro seria ela só um grande evento. Então depois de uns dias de espera, me apareceram as artes que estamparão os exemplares de Trapaça.

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Desenho de Meow by Miu, da série “Aquilo que não sei explicar, mas que não deixa de acontecer”. Técnica: desenho sobre papel carbono.

Sobre a série de desenhos que ilustram Trapaça, ela mesma fala a respeito:

A capa é uma obra que de fato já existe. E todas as outras obras que compõem o livro também já existem. Pertencem à série “Aquilo que não sei explicar, mas que não deixa de acontecer”. São experimentos com caneta esferográfica sobre papel carbono e papel vegetal. Sempre em vermelho e azul. Às vezes, transferidos. Células, labirintos e riscos (às vezes, estratégicos ou em acasos) constatam a fragilidade que é tentar ser fiel a si mesmo. Como nos trechos

(…) Já somos o esquecimento que seremos.
(…) Não espere que o rigor do teu caminho
Que teimosamente se bifurca em outro
Que obstinadamente se bifurca em outro, tenha fim.

Algo que se assemelha à teoria da trajetória humana dentro do labirinto de Borges,
onde nos colocamos à espera da redenção, onde cabem os devaneios, a busca e a fuga do outro e de si mesmo; a vulnerabilidade e as frustrações de se estar vivo,
sugerindo ser a existência uma travessia constante ou um itinerário errante.

Por fim, ressalta-se que o processo de produção das obras vem acompanhado, em tempo parelho, por um estudo entusiasmado da psicanálise e antropologia do artista.

Andréia Peres é artista visual, curadora e produtora gráfica. Atualmente, como pesquisadora, desenvolve um projeto de difusão e imersão em Arte Bruta e outras outsider arts; as pesquisas compilam catarses e seus desdobramentos teóricos e práticos, não somente do ponto de vista histórico da Arte, mas também antropológico e psicanalítico e suas vertentes contemporâneas.Recentemente, organizou e realizou, em parceria com a Divisão de Cultura da FURB, a Semana de Introdução à Arte Bruta.

Para conhecer seu trabalho e navegar por suas pesquisas, acesse a página da artista Meow by Miu no Facebook.